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segunda-feira, 11 de maio de 2015

um, dois, três


ainda tenho nuvens nas pontas dos dedos das mãos. ainda frases que se repetem na minha cabeça. imagens caóticas. pesadelos. encontros e desencontros. equilibrismos. flores nos cabelos. mas o meu corpo é feito de estilhaços. inicio as batalhas. após tantos anos de um jogo de forças. ossos, articulações, veias, órgãos. um, dois, três. ressonâncias. máquinas. que eu sou uma máquina, dizem. e toda a máquina avaria. e: um, dois, três. não me vou deixar vencer e: um, dois, três. com os anos acumulam-se os pesos. tudo pesa. e o desafio é enlevecer. o amor vence. o amor vence. dou as mãos. encosto a cabeça. sorrio como quando há nove anos atrás. e as águias ainda resistem. olho para elas. não há caça que as extermine. não há, não pode haver. e eu estou aqui. ainda estou aqui. e respiro. e sinto a saliva e uma corrente de ar quente a circular por dentro. e o ardor que ainda aqui está. vivo. viva.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

quantas vezes já o mencionei?



Lição número 1, sobre a solidão: 
tudo reside no silêncio.
Lição número 2, sobre o medo: 
podes sempre espreitar por debaixo da cama.
Lição número 3, sobre o corpo: 
arde.
Lição número 4, sobre o amor: 
.
.
.

tudo é mutável. até as tuas mãos.



para já:
ardo e ardo e ardo e ardo
este ardor por baixo da barriga
do lado direito
quase na dobra da perna



e por dentro
a vida a querer surgir
a surgir vida




Lição Última:
Enquanto estiver viva, estou viva.
Quando a morte chegar, chegou.
No entretanto: ardes e ardes e ardes e aprendes a lidar com a dor.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

da quebra



a chuva é metáfora feroz. copo meio cheio meio vazio. qual é a hora certa, a hora de ir embora? a tempestade anuncia o outono e a quebra. o cabelo enfraquece em solidariedade com as folhas. o vento acorda-nos. parece que já não sinto nada. há um vazio que um dia explodirá de estar tão cheio esse vazio. tão cheio de culpa. e continuo a pensar que dar é receber. dar é receber. e é. e a minha entrega é inteira, sempre o foi. em tudo. mas o amor, ai o amor. tanto que ouvi dizer. que já ouvi dizer e tão pouco que sei. de tanto que sinto. venho explodir para a escrita. quero tirar isto de dentro. copo meio cheio meio vazio consoante as gotas de chuva. e tenho medo de quê? temos medo de quê? life is so short. a vida é um sopro. um sopro; é dança. danço contigo ainda todos os dias. quero dançar contigo o resto da vida mas quero dançar no céu na terra no mar. quero voar. sinto que se ficar aqui vou ser engolida pela terra. não quero ser engolida pela terra. quero deixar-me levar mesmo que doa. antes a dor que o desconhecido. ao menos isto é real. isto eu sei o que é. é a causa. e daqui surgirá o efeito. e recompensa. seja recompensa boa ou má. o meu corpo é um poço cada vez mais fundo. e afundo e afogo-me quando deixo de ver o fundo do fundo do poço que é o meu corpo que tanto espaço tem em que tanto cabe mas em que já não consigo estar. é a lição mais difícil esta: a espera. os meses vão voar. e eu vou voar com os meses. querido outono, sê gentil.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

do então



as mãos tremem novamente. a escrita está embrulhada. quero dizer, está guardada, quero dizer, está condicionada. estarei eu. há um documento em aberto. dois. três. registos. essa ideia de memória. e tudo se guarda. fotografias, palavras, papiros, paredes, ruínas. arqueologia. poesia arcaica. cidades-estado. a percepção da história cíclica. o círculo. e vamos lá parar outra vez? e é um espelho o que temos afinal/no final. e eu, Alice, do outro lado. nego este mundo assim como está. nego-o. as cartas prosseguem. a voz não se silencia. afinal pertence-nos a língua, a linguagem, as palavras. tudo se embrulha então. mas neste momento são 100 páginas que me puxam para um final - que se feche. que se feche esse ciclo também. que se abram outros. que as portas sejam janelas e as janelas portas e o medo seja mentira. o medo é uma mentira. e estreia hoje. sem rede. e então é isto. e então o corpo. e então o olhar. e então a plateia. e então escuto e então guardo. a escrita chegará talvez nos próximos dias. e ultrapassará as 100 páginas. e poderá trazer uma primavera por dentro de um inverno. e um corpo-pensante. circundo-as-palavras-que-se-calam.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

dos joelhos e dos traumas


os peixes também sangram. um maxilar bem desenhado. rectângulo. joelhos traumatizados. narrar um rasgo laranja-amarelo no horizonte que não se mexe e ser brindada com visões poéticas de pessoas com menos de um década. os políticos iniciam as campanhas que nos jornais são traduzidas para corridas e de repente estamos todos a observar uma maratona. continuo na observação do movimento, dos movimentos. na prática. um monte de roupa enlaçado em dois cestos e a minha vontade em atirar-me lá para cima, gritar um pouco, lançar ao ar. made in china e um desafio para 30 dias. caminhar pelas ruas sentindo a potencialidade dessas ruas sentindo até um pedaço de medo sentindo até um pedaço de calor-frio sentindo até uma vontade de construir. construir reconstruir. continuar. rotando. mas uma tese não se escreve sozinha. há também grades que precisam de derreter. ainda. muitas. e as velas parecem ser cada vez menos. as pessoas caminham em silêncio, olham-se em silêncio, algumas já não se olham. são amigas no facebook mas não se cumprimentam na rua. uma canção. a violência de uma dança. a violência da não-violência. uns joelhos traumatizados. uma viagem a adivinhar-se uma aventura inominável. rectângulo redondo dentro de um mapa. traumas. mercadoria. projectos. desenhos. maxilar. ossos. roupa. corpo. documento. segredo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

das asas


um abrandamento dos passos ao mesmo tempo que o coração acelera. é um fenómeno, está a perceber? como se tivesse uma parede muito forte, muito resistente, uma película que não poderei chamar pele nem músculo nem membrana. é qualquer coisa inominável. atravessa sem atravessar? não sai do peito saindo. e lá estou eu às voltas de um coração que também rodopia. um abrandamento dos passos enquanto o mundo se amplia. enquanto as asas dos pássaros se abrem ou enquanto um casal de andorinhas se prepara para dormir no fio do terraço daquela casa. e há pássaros que abrem as suas asas mas parece que mais ninguém repara. o calor é tanto que as árvores são invadidas de grilos em histeria durante a luz do dia e discretos vão invadindo depois o silêncio da noite-das casas. electricidade no ar. os passos abrandam ao mesmo tempo que abranda ligeiramente o dia: a luz abre. o sol despede-se a cada dia um pouco mais tarde um pouco mais cedo. e eu atravesso. e vou de mãos dadas. quem disse que o verão não chegava?

domingo, 26 de maio de 2013

da criação-comunicação


queria(?) narrar sobre a vida que tem escorrido das árvores e da morte dos seus membros. da perda de partes. da criação de espaços para criação de vida. da morte como criação de vida. da insistência última em ver por dentro do fora. em virar do avesso sem desfazer. danço com as árvores e embalo-me com o vento brando. uma árvore não está imóvel - as suas raízes nunca deixam de crescer - de se movimentar - de adentrarem ainda mais na terra - de se expandirem por debaixo do sol/solo - abarcando - devolvendo - aconchegando. e vai crescendo - dançando a sua verticalidade. um desafio às leis da gravidade. e nós também. verticais. danço na vertical. o corpo escorrega para cima. entre o céu e a terra e o invisível. uma árvore podada é a perna do m. o seio da e. a trompa da s. é o espaço vazio que fica por dentro do contorno. o desenho não desaparece. é a dor fantasma. porque a vida continua lá. entendamos: a vida é a consequência da vida. e a morte nasce connosco desde que somos célula.

domingo, 19 de maio de 2013

da ruína


residência artística em vila velha de ródão | tapada da tojeira
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densificar a pergunta - afinação


a solidão acompanhada aparece então como a vibração de escutar o acontecer entre. entre chegar-deixar chegar, entre célula e matriz, entre uma membrana e outra, mas também entre o desconhecido e o desconhecido. a afinação não é mensurável, pelo menos não com um dispositivo que a fixe. quando duchamp pergunta como fixámos o metro densifica a pergunta das coisas fixas.

solidão acompanhada, por sofia neuparth

terça-feira, 16 de abril de 2013

(ainda) do movimento



em movimento contínuo não sei ainda bem a que velocidade. dentro do corpo. a adentrar no corpo. na escuta. um estado de alerta constante. um cansaço que vai chegando e eu a tentar mandá-lo embora. ainda a espera. tantas vezes a espera. e surgem perguntas: Perguntar! um limbo entre a euforia e a apatia. as ruas a desenharem os mapas das cidades e as árvores com os seus mapas próprios nos troncos e a minha geografia inteira dentro disto tudo. deste mundo inteiro. desta maravilha toda. que tem tanta merda. encontrar novas perguntas a cada dia. onde mora a tua atenção? eu vou passeando a minha pelo agora. talvez por isso fuja aos textos, à academia, à literatura. venha um pouco de filosofia. venha o pensamento-movimento. convocarei as superfícies de encontro.

domingo, 25 de novembro de 2012

era para ser uma lista


queria escrever sobre a fadiga e sobre a combustão dos órgãos. do fogo que consome lentamente o interior do meu corpo. e de todas as coisas à volta. e depois sobre as balas em Gaza e o arame farpado. e também queria escrever que é o dia em que se diz: chega de violência contra as mulheres. e disto tudo concluir que este mundo é uma máquina gigante com as peças estragadas. está o relógio parado no mesmo sítio e a verdade é que, se não fosse pelos dias e as noites o comprovarem, diria que o planeta parou de girar.
e agora que escrevi sobre tudo isto que queria escrever: vou tentar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

do vinte e três ao vinte e sete


digo-lhes: os egípcios acreditavam que o corpo era um abrigo temporário para uma alma. as crianças brincam com as palavras como borboletas e carrinhos de linhas. durante o dia cosem as palavras umas às outras numa não-lógica própria e mostram-me imagens que desconhecem mas que estão a descobrir. à noite, um olhar é um abraço. um abrigo ou desafio. não há espaço para os órgãos. apenas empurrões constantes por dentro. estômago avariado. um corpo pasmado com a força de um braço agarrado a outro. duas mãos na testa. o centro. respiração:


centro-te, na vez de sinto-te.





da plataforma


quantos quilómetros andaria de uma ponta à outra da estação de comboio, junto à plataforma, junto à queda, sem parar? quantos segundos do teu dia são a pensar em sorrisos? «o meu mundo é hoje», respondes-te. cantas um refrão por dentro. e por isso danças e friccionas os teus braços no linóleo até queimar e ficar com o corpo colado e magnético. deixas criar as crostas. andas na rua e atrais as pedras e deixas-te atrair pelos prédios e janelas e as pessoas lá dentro. olho cada vez mais para dentro das coisas, desvelando o que está por fora, que é o avesso. quando vou e remexo no lixo com aquele homem que procura algo para comer. o bafo a álcool é exterior-avesso. o cheiro exterior-avesso. as feridas internas é que estão por-fora-por-dentro. aprendo a desistir para me agarrar mais profundamente. acto constante de (re)criação. não ter medo de mandar o previsível à merda. não terminas porque não és um ponto. nem nunca serás.


26 de julho, 2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

das listas prometidas


1# guardei a primeira concha do ano
1.1# devolvi-a a duas carpas
2# ombros queimados
2.1# novas sardas na cara
3# the day before the last day
4# crescer
5# «experimentar saber se sei tudo o que eu sabia, se eu sei o que é saber»

quinta-feira, 21 de junho de 2012

da distância que se corre


movimento subtil das pestanas a acompanharem o lento fechar dos olhos. o cansaço de um corpo que já não resiste ao vento. à ventania. as portadas das janelas a baterem. a chuva a cair mansa, quase não se ouve. e as janelas a baterem nas portadas a abafar o som do chão molhado, a ser molhado. uma lágrima presa por dentro que desce até ao estômago e vai enchendo e não me deixa ter fome. estou cheia. estou cheia por dentro. preciso de um casaco novo e queria que uma avó me tricotasse um casaco. já não tenho avós e vou pensando no tempo e nas senhoras que talvez me quisessem tricotar um casaco. as ruas são quadros repetidos, é como visitar sempre o mesmo museu. são sempre os mesmos quadros, as mesmas pedras, muros, caixotes. mais valia que fossem ruas impressionistas. mas não são. não questiono a força das minhas pernas apesar das frágeis veias quererem romper a pele. como se tudo quisesse sair de dentro. não questiono a força das minhas pernas porque sei que um dia desato a correr e elas não me deixarão que ninguém me apanhe até pararem num precipício que ecoe e que deixe sair o que tem de sair, até dizer: regresso.