quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

lugares do coração em 2010.
montemor-o-novo, londres, porto, lille, barcelona, cracóvia, praia grande, serra de sintra

José e Pilar


o retrato íntimo do amor.
a força pungente e contundente de uma mulher que tem ideias para a vida.
a coragem e a delicadeza de um homem que tem ideias para romances.
o mundo e a sua angústia.
o pulso.
as veias das mãos.

a eterna viagem.
o tesouro de ser sem temer.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010


Hans Baluschek (1876 - 1935) 
Proletarierinnen, 1900

como

a cabeça de um pássaro
contra a cabeça de um elefante

da terra


O cabelo desgrenhado e a caneca com o chá acabado de ferver entre as mãos. A cabeça encostada na ombreira. As árvores a bailarem lá fora. O gato empoleirado nos ombros espreita o pássaro que se atreve nos seus primeiros voos. O sol de inverno deixa adivinhar um dia frio e pousado. O coração que se esconde atrás deste corpo/parede bate agora no seu ritmo normal. Os pensamentos fugidíos têm agora tempo para fugir para onde quiserem. Penso na terra. Penso nos pés a andarem por essa terra. Penso numas galochas. Penso na lista para o novo ano que aqui vem. As ideias são sempre muitas e não posso mesmo deixar que todas elas me fujam.

 

sábado, 18 de dezembro de 2010

quase tudo se compõe. as flores na jarra. o bocejo lento. os papéis nas gavetas. o gato a trepar a árvore. as luzes. a manta verde sobre os joelhos. as dores nos pulsos e tornozelos. as frieiras. a serra. os tapetes. a água gelada. o azul. os versos. e o quase, quase do novo ano. mas antes disso,  quero terminar de tecer este, assim, como nada e quase tudo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

hoje mais serena. que seja o que o coração quiser.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

do grito sem voz

GRITO oco por dentro. tudo se dissolve.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

feridas nos lábios e nas mãos. guarda-chuva-me.

sábado, 4 de dezembro de 2010

da inspiração e da força e da revolta e da acção


o pai toxicodependente. o filho institucionalizado. em primeiro, o abandono. em segundo, o perdão. não queria explicar mais do que isto. apenas acrescentar que há testemunhos que me abrem os olhos para além do azul e que me inspiram a lutar pela educação neste país. mesmo.

do grito na madrugada


Pai: É uma coisa boa. Não salgas a comida.
Filho: Tenho medo de pôr demais.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010






Francesca Woodman, door

do silêncio


hospital. corpo-de-mulher-como-um-quadro-da-paula-rego. voluntariado. aftas. saudades. colo. gato. veterinário. comboio. aflição. mal-estar. sorrisos. amor. tinteiro. buracos. livros por ler.

podia ter escrito tudo isto num texto. podia espalhar tudo isto num texto. mas não me vou esforçar desta vez.
hoje não sei escrever. e isto não faz disto um texto.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

da proximidade


Entrei na livraria percorri as mesmas estantes percorridas no Domingo e um livro que desarrumei nesse dia continuava intacto sereno no mesmo sítio em que o deixei. saio para a rua e as gotas da chuva caiem sobre mim sem me tocarem. não tenho guarda-chuva. apenas um gorro feito à mão. Fico surpreendida com a velocidade do cair da chuva no chão e com o meu não-sentir. Magoei-me no nariz, segunda-feira. Mas de momento estou mais centrada nas dores dele. Do pequeno que continua na cama de um hospital. Uma borboleta luta contra o vidro de uma janela. Os meus olhos mudam de cor. Estão cinzentos agora. Por dentro, vesti-me de azul escuro. No meu quarto, está um barco-caixa que me vai salvar de ser engolida por esta noite. Adormecerei.

da imaginação

Depois de fechar a porta da rua pela quarta vez, após breves arrepios de frio.

- Mas quem é que anda a abrir a porta?

- Deve ser Allah, Professora.

Sorriso.

sábado, 20 de novembro de 2010

os olhos azuis


A pergunta era uma no meio de muitas, sobre cores desenhos dias e noites actividades preferidas camisolas e olhos países e. Uma das perguntas era: Quem, na sala onde tu estás, tem olhos azuis? Um dos meninos, de 8 anos, uns olhos castanhos escuros enormes responde: Eu tenho olhos azuis. Levei a ficha para casa e coloquei um certo na resposta.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

auto-censura


O medo nasce atrevidamente das minhas mãos alastrando pelos braços até me chegar à língua. os dedos prendem e castram as letras que verdadeiramente se queriam fazer ouvir. a língua presa, fazendo estalido contra o céu da boca na esperança de que alguém a solte. a auto-censura é a pedra que apetece atirar à própria cabeça. para dar um tempo, para contrariar o tempo, vou passar os próximos dias a trabalhar sobre o preto e o branco. sem deixar de sentir o sangue vermelho por dentro. sem esquecer as cores de dentro. mas mostrando o branco por fora. pintado de preto.

Emmenthal

Que o texto é um queijo esburacado. Que as palavras são nada. Que o humano reside no sorriso. Que o obrigada é enternecedor. Que a minha barriga é mais problemática que o meu coração. Que o meu corpo estremece descontroladamente durante breves segundos durante a tarde. Que não tenho medo. Que inspiro. Que salto para dentro das palavras e sou essas palavras e mastigo essas palavras e desejo essas palavras. >E que vou escrever, incontrolavelmente, até me doerem as mãos.

da mulher amada

Com a lentidão de quem se conhece há muito...

(...)

   Caminha.
desliza, resvala e não te detenhas nunca a meio da vertigem.

Maria Teresa Horta, Ana

do subtil

Hedda - Toma. Esta pistola já foi apontada a ti.
Lovborg - Devias ter disparado.
Hedda - Que seja belo.

José Maria Vieira Mendes, Hedda

terça-feira, 16 de novembro de 2010

a palavra inesperada


Sakineh Ashtiani, de 43 anos, não foi morta. Susana, de 23 anos, também continua viva. Em modo rewind. As lágrimas cristalizadas na face a ouvir a palavra "Abrigo". E o estômago embrulhado de ouvir palavras presunçosas e vazias mas ainda assim, irritantemente pertinentes. A inutilidade de olhar para ele, para o gesto,  para os olhos, ele que foge com as palavras mais do que foge com o olhar, que só quando não verbaliza é herói. Ele embrulhou-me o estômago. Eu penso na relevância de estar aqui. A escrever isto agora sobre tudo isto que agora penso. Ou finjo pensar. Descobri novos temas, descobri novos métodos de fuga. As minhas mãos brancas secas e gélidas cobertas de arranhões. Uma nódoa verde na minha perna direita, quase junto ao gémeo. A varanda e a vertigem da varanda e o vento. E a sala de aula com cadeiras e um quadro e um professor dentro com colegas muito maiores do que eu. E as cadeiras de veludo que balançam e prendem. E as palavras injustas e armadas. Queres falar sobre ti ou sobre aquilo que queres dizer?! Um alguém me arregala os olhos. Qual é o teu objectivo? Um outro alguém me arregala os olhos mas responde prontamente. Pensar. Só, assim. Pensar. Na sua mais pura ingenuidade, a palavra mais simples, mais desprovida. Pensar.

Agora, eu própria, 23, a desafiar as leis do meu mundo. A quebrar a gravidade. A ter dores de barriga. A não fugir. A confrontar. Agora aguentas-te que já não tens forças para segurar as palavras sozinha.

E tudo isto só para dizer que





é inútil ver
tão útil o




mundo.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Autoridades iranianas dão ordem para executar Ashtiani nas próximas horas

«Sakineh Ashtiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, foi condenada originalmente em 2006 por adultério, tendo então sido submetida a 99 chicotadas. Dois anos mais tarde, um outro tribunal, durante a análise de um outro caso, sentenciou-a à lapidação, com a arguida a manter desde sempre a sua inocência.»
 
 
Por favor, não.
 
 

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

esqueci-me do que ia a dizer.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

                               não esquecer nunca a intimidade.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Women are Heroes


TRAILER " WOMEN ARE HEROES" from SOCIAL ANIMALS on Vimeo.

Um projecto maravilhoso. http://www.womenareheroes.be/

sorrir. ensinar o meu nome. aprender os nomes de todos. enganar-me. recomeçar. olhar nos olhos. dar as mãos. os lápis desafiados. os estojos incompletos. onde estão os lápis de cor? desenha o teu lugar preferido. alguma vez foste à praia? "não. nunca. mas andei de barco uma vez, em Lisboa."

re-aprender matemática. contar pelos dedos dos mais pequenos. ler histórias, conhecer as histórias. sopas de letras.
mais, menor, igual.
subtrair multiplicar dividir
somar



        voluntariar,
 de coração.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


sótão desabitado
arrecadação de cenário e adereços
paisagem desencontrada
chão côncavo do lustre
aqui mesmo
rodeada disto tudo
o lugar preferido.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

não sobra muito mais por dizer



Miúdos mineiros, Pensilvânia, 1911


quinta-feira, 14 de outubro de 2010


contínua aprendizagem. quererei saber mais, sempre.
a curiosidade é tudo.
cabelo solto
reflexo no vidro do comboio
uma camisola preta, de costas
canto uma música por dentro
danço com o pé
ele olha para mim
eu não

domingo, 10 de outubro de 2010

apenas

Kakuma, Terra de Ninguém


desliguei o telefone e por pouco não desliguei o coração. anos de vida cravados de chumbo. a inutilidade. e a lição sobre o peso do abandono.

sábado, 9 de outubro de 2010

fotografia


O que pensas quando olhas aquela fotografia? O homem observa com o olhar atento, pousado. Rosto neutro. Surge na imagem a fotografia de um cavalo branco a transportar uma carruagem. Imagem do mundo perfeito impressa em folha de calendário e presa a uma parede por um prego. Ele responde não sei. Pensamos em tanta coisa quando olhamos para uma fotografia. O rosto trémulo. A mulher diz, muito segura de si, "quem me dera ir nela". O homem responde, muito seguro de si, "nunca nos deixariam ir nela". A mulher pergunta a si mesma "teríamos dinheiro para andar nela?" Aquele rosto, trazido para a minha vida, pertencia a um motorista de riquixá, no Bangladesh. Ele é o cavalo branco na sua bicicleta. Ele é o rosto puro do mundo. Ele é aquele olhar brilhante tão cheio no seu rosto vazio. Ele e ela e a simplicidade de duas frases. A saltarem do ecrã para dentro de mim.


após visionamento de um episódio de "city folk", no canal 2:

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

assim, corrido, tal e qual

- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre à excepção de dois dias por ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades e quando a tempestade pára e as árvores deixam de gritar ouvimo-los gritar sobre a praia como degolados isso impede as crianças de dormir não eu ia-me embora

(...)

- É verdade que quando o vento pára nesta cidade é tão raro que nos sentimos como que abafados. Já reparei.»

em Moderato Cantabile, de Marguerite Duras

7-10
a poesia:
pouso, claridade desarrumada,
o sorriso guardado pelas nuvens
que protegem o chapinhar dos passos

as imagens:
nevoeiro
insectos
armários

a realidade:
o ardor nos pulmões
os passos acelerados do meu coração a chapinhar no sangue que me saiu pela boca hoje de manhã.
ardem-me os pulmões.

terça-feira, 5 de outubro de 2010


aprender a respirar
a ampliar os pulmões como um gesto

aprender a correr
sem estar presa



e em velocidade:

aprender a libertar a cabeça do que não interessa, olhar em frente, olhar o mundo, saltar a barreira que me separa da acção, largar as bandeiras, que o silêncio não perdure, que a ignorância não perdure, que a escola não minta, que os manuais escolares não mintam, que o respeito seja um valor universal, que ler é fundamental, que a consciência importa. aqui vai. partirei daqui.

«(...)Eli doesn't know if he can ever write a poem again
one third of the homeless men in this country are veterans
and we have the nerve to Support Our Troops
with pretty yellow ribbons
while giving nothing but dirty looks to their outstretched hands
tell me what land of the free
sets free its eighteen-year-old kids into greedy war zones
hones them like missiles
then returns their bones in the middle of the night
so no one can see
each death swept beneath the carpet and hidden like dirt
each life a promise we never kept
(...)»

Andrea Gibson, poet and activist
http://www.andreagibson.org/poems/poems_foreli.html
ficheiro audio no link (spoken word)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


só mais um apontamento:

hoje, onze da noite, silêncio nas ruas, a passear junto da linha do comboio enamorei-me pelo som da electricidade. a correr por dentro daqueles cabos como sangue nas veias, mas mais mortífero.
o meu estômago está embrulhado
protegido contra socos
já quase não me dói na barriga, sobe tudo imediatamente tronco acima até desaguar nos olhos
a dor toda em água
o coração, é sempre o mesmo, tanto de fraqueza quanto de dureza.

guardo muitos nevoeiros ainda por contar.

sábado, 25 de setembro de 2010



sou um ovo cru nas mãos de um gigante,

disseram-me hoje

considerarei isto como um bom elogio.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

mais curto e mais sincero


uma nova nódoa negra. levei com um armário nas costas. dilemas intermináveis. terminou o verão. olá outono. tenho os teus dias cheios. tenho feito rimas forçadas. tenho sentido vergonha. tenho sentido orgulho. sei que há um caminho novo que quero trilhar. sofro por antecipação. sofro por ansiedade. sofro por saber que há quem sofra de verdade. os olhos lacrimejam, pois. só por saber que há alguém que. por solidão. os cabelos caiem, espalham-se por todo o sítio. olá outono. o meu corpo em constante metamorfose. hoje fui uma pétala.


Curva de árvore
Frescura de uma brisa de Outono

Pétala dorida
A adormecer nas folhas secas do sono

segunda-feira, 20 de setembro de 2010



onda xenófoba abate-se sobre a Europa
não há como perceber

esquecem-se anos de conquista por direitos humanos, anos de conquista por fronteiras e união de fronteiras, anos de conquista por respeito, filosofia, valores, para isto.


Hoje, o mundo viu a acontecer na Suécia:

http://www.publico.pt/Mundo/extremadireita-com-20-deputados-no-parlamento-muda-a-imagem-da-suecia_1456714

«Os analistas apontam que os Democratas da Suécia – com os seus programas anti-imigração – terão capitalizado nestas eleições com o descontentamento crescente na sociedade, sinalizando uma mudança de fundo na imagem de tolerância e abertura do país, onde 14 por cento dos 9,4 milhões de habitantes são imigrantes.»
(...)
«A confirmar-se estes resultados, estamos perante um cenário que a maior parte dos eleitores suecos queriam evitar: o de que temos um partido xenófobo com a balança de poder nas mãos”, avaliou o cientista político sueco Ulf Bjereld, da Universidade de Gotemburgo, citado pela agência noticiosa britânica Reuters.»

E assim vai o estado do mundo. Doente, como sempre.


Mensagem de uma colega activista pelos direitos humanos, na Suécia,
«yes THIS IS A DISASTER!!! JUST CAME HOME FROM A DEMONSTRATION! IT WAS HUGE. I AM SO MAD. YESTERDAY WAS AWFUL, ALMOST CRYING INFRONT OF THE TELELVISION. I so hate the fact that this is spreading, all over europe now. I can't believe we have a racist party in our parliament.»

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

mancha de pólvora


 

 

Léon Gimpel

e devagar...
tudo vai a seu lugar

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

estou entre a parede e a parede
o meu corpo está uma concha fechada

não conheço o movimento a seguir à decisão
ou estilhaço tudo e divirto-me a apanhar os bocados
ou abro lentamente e descubro o que lá vem devagar

os ossos todos se arrepiam
as veias arrebitam
o medo é medonho.
acho que quero vomitar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

voltei a ter sonhos bonitos


volto a mim, a pouco e pouco.
pertenço-me.
os passos são cuidados, mas algo desequilibrados

tenho os calcanhares com nódoas negras
o coração dorido do tempo
a alma cheia de abraços

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

o coração nos pés,
os órgãos fora de sítio, sabes?
ela respondeu que sim.

o mundo todo gira ao contrário
rodopiamos de vez em quando
só para trocar as voltas

se voltar costas desequilibro-me.

ela disse:
não contes tudo. nunca contes tudo.


no futuro,
quero aprender equilibrismo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

quando há um rio que atravessa o nosso corpo
e o nosso corpo é um barco atracado
e o mar puxa-nos para dentro dele
ficamos confusos na luta.

quando as palavras atravessam o nosso corpo
e o nosso corpo é a palavra
que nos puxa para dentro dela
ficamos confusos na fuga.

domingo, 22 de agosto de 2010

hoje estou assim:

escrever e apagar, lembrar e esquecer
lembrar e esquecer, escrever e apagar

que há um rio. e há uma ternura. e há um calor. e há um muro.
que há um sentir.
que há um olhar que é o meu e não me deixa mentir.

sábado, 21 de agosto de 2010

Próxima etapa: adicionar uma descrição, talvez?

Sim, por favor.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

tenho dedos cravados no coração,
alguém que o apertou.

a cabeça num rodopio imenso
palavras que me assaltam,

os sonhos em inglês
os gestos num avião

sexta-feira, 30 de julho de 2010

air

quinta-feira, 22 de julho de 2010

viagem

em transferência
 de lugar
de rumo

o corpo como coreografia
o corpo como quadro

Delacroix pela queda da camisa no meu ombro e pelo despertar do meu seio
as sementes estão no solo das tábuas

o olhar - la mirada - aceita
respira
empieza a nacer

ternura escondida em lugares
vomitar de terra
engolir de ar

a vida é feita de corpos
corpos que são árvores
que se semeiam.

só theos sabe.


domingo, 18 de julho de 2010


verdes círculos

perfeitas planícies

os planaltos segurando o céu

os rios a rasgar a terra como veias

pulsar das rochas pelo queimar do sol


a mim não me restam dúvidas:
a melhor visão do mundo, pertence ao pássaro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

salvam


lentas manhãs,
maçãs,
até chegarem às mãos

fazem saltar
o coração

as palavras




.

domingo, 11 de julho de 2010

kill shakespeare

depois de entrar numa sala


A destruição da educação e da cultura. O questionamento. As guerras pessoais e colectivas. A subjectividade. A imagem. A violência. O carinho. A beleza de uma estética que tanto acaricia como agride. A farinha que atravessa os dedos, que se mistura com o leite, que é mexida até se transformar em máscara. Eles no vídeo. Eles vinte anos mais novos. Eles, os lutadores, os criadores, os inovadores, a fecharem a porta, a despirem o casaco, a fecharem os olhos. A desistir – a matar Shakespeare. No fim disse-lhe: isto mudou a minha vida. Antes das 19h00 do dia 10 de Julho de 2010 era uma outra pessoa. Mergulho nas imagens, mergulho nos sons, nos elogios e nas bofetadas. Quanto à lição que aprendi, vou guardá-la no coração. Bem como o seu sorriso e olhos brilhantes, quase em lágrimas, eu senti. As minhas mãos tremiam, mais uma vez, tremiam, as minhas e as dela.

quinta-feira, 8 de julho de 2010


«Hora de acabar. Cita Grotowski: "O conto narrado oralmente é a génese do teatro e da literatura". E acrescenta: "Por isso é muito importante contar sempre histórias, não só para adormecer as crianças, mas também para despertar os adultos!"» 

Entrevista a Coralia Rodríguez, Festival Teatro de Almada, folha informativa nº4 - 07 Jul 2010

imagens dos dois últimos dias

Um homem atravessa o passeio com um balde de azeitonas. Os insectos atiram-se a mim. Várias picadas. Atiro o cabelo para trás das costas. Abano o calor. Sorrio para o nada. Estou farta de ouvir dizer que tenho um ar sério. A leveza esconde-se por dentro. Uma gata corre para os meus pés, tropeça nos meus chinelos de dedo, mia, chora, sobe as escadas atrás de mim até ao terceiro andar. Deito leite numa taça, deixo-a beber. Ela enrosca-se no tapete. Olhamos uma para a outra, ela pede para ficar, eu peço-lhe que não me peça. Abro a porta. De manhã voltei a vê-la, àquele pêlo cinzento e dentes pequeninos e afiados, patas adoráveis, miou, pedi-lhe desculpa mas ela não quis nada comigo. A cidade mudou o cheiro, está abafada. As pessoas deixaram de correr, instalaram-se nas cadeiras. Depositam as almas nos contentores. Não sei o que fazer quando a leveza se esconde por dentro. Tenho medo das pessoas. Dos olhares ambíguos, do engano. Quando achamos que conhecemos alguém. É incrível a quantidade de picadas. O corpo é comichão. Entre os seios, uma ligeira irritação. Olhei para a mesma lista vinte vezes. O meu nome não apareceu. O meu nome não apareceu. Como se não tivesse nome. Como se não tivesse direito. Como se alguém achasse que me conhece. Olhei para a lista e: foda-se.

>Respiro.

O hoje é para avançar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010



Um dia escrevi um texto sobre tonturas. Porque quando fechava os olhos tinha tonturas. Hoje ao fechar os olhos tenho tonturas mas as palavras que quero agarrar tornam-se maiores que eu. As palavras são gigantes. E não usam sapatos. Fogem mas eu não as deixo de ver, apenas deixo de as poder escrever.

terça-feira, 29 de junho de 2010

desert flower (2009)


«Female Genital Mutilation happens primarily in Africa, in particular in North-Eastern, Eastern and Western Africa. However, it also takes place in the Middle East, in South-East Asia - and also among immigrants in Europe. According to estimates by the World Health Organisation (WHO) 150 millions women are world-wide affected by it. In Europe, the number of mutilated women or girls and women threatened by FGM amounts up to 500,000.»


Uma voz pode fazer toda a diferença. 


sexta-feira, 25 de junho de 2010


Emile Friant (1863 - 1932) The Lovers
É no toque do dó que o meu coração estremece.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

às palavras


As palavras impostas:
Rebento-as.

As palavras quentes:
Acelero-as.

As palavras sofridas:
Mastigo-as.

As palavras sentidas:

.


emudecerei.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Yves Brayer, Le Reflet (1973)

porque me tremem as mãos

Seis e meia da tarde, consigo finalmente sair do ar condicionado: na rua, cheira a verão, no meu prédio, cheira a poeira.

Ao cortar o pão espetei a faca no pulso. Nas paredes do braço ficou cravado um pequeníssimo buraco, nas paredes da cozinha ficou gravado um delicadíssimo grito.

domingo, 20 de junho de 2010

Daqui a uns dias, quando a calmaria se instalar, deitar-me-ei na terra a pensar e a correr na minha cabeça  campos abaixo e acima, na esperança de o ver abraçado a alguma árvore. 
 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nas casas baixas vivem homens e mulheres, sozinhos e sozinhas, que acordam antes do dia. As mãos são mais pequenas, queimadas e rijas. A pele é muito rija e áspera e magoam quando tocam na cara. Por isso, escolhem não lavar a cara. A pele é muito espessa e rija. - Por que é que ela não tem um olho, mãe? - Foi o irmão, espetou-lhe um garfo no olho. Nunca mais brinquei com garfos, e durante dias só comi com a colher. As pedras foi o meu avô quem as lá pôs, no chão, são grandes e magoam quando as pernas fraquejam. Mas as pernas dobradas do meu avô sofreram mais que as minhas pernas quando fraquejam e caiem dobradas nas pedras. O meu coração também fraqueja, mas o coração do meu avô fraquejou mais, quando o dia chegou ao fim. Quando os meus pés sentem as pedras quentes e os meus cabelos se colam ao pescoço suado e as minhas mãos ficam rijas como a terra e como as alfaces rijas e cheiro as camisas que já ninguém veste, no armário mais antigo lá de casa e corro eira abaixo com medo dos uivos – eu sei, que aqui o coração importa.

segunda-feira, 14 de junho de 2010


do filme: becoming jane

nunca pensei que a jane austen me dissesse tanto. por trás do belo reside uma amargura profunda. 
foi a literatura que lhe aliviou o peso do amor que teve que guardar. e também com ela sobreviveu aos golpes de injustiça da sociedade, apenas recorrendo à sua prodigiosa imaginação.

ao mundo, ainda lhe falta muita literatura.

"Death Penalty"



Um fabuloso vídeo.
Tenho cada vez mais forças para continuar a lutar pela defesa dos direitos humanos.

domingo, 13 de junho de 2010


James Abbott McNeill Whistler (1834-1903), Reading by lamplight
o optimismo vem chegando, apesar da desorganização.

espero amanhecer em palavras.

quarta-feira, 9 de junho de 2010



Coração fraco/coração acelerado.
Acelerado/Fraco/Acelerado.
Já não conheço batimentos normais.
Para fora sai quase tudo,
pelos olhos, pela boca e pelo nariz.
Hoje o coração também quer sair.

Os órgãos em discussão com o cérebro.
O cérebro em discussão com os órgãos.
As peças desencontradas.
Em absoluto: fora do lugar.

Deixei de pertencer.

Perdi o mapa pelo caminho
a bússola de nada me serve.

mas sei
que no próximo cruzamento
vou tentar virar à direita
e enterrar o pessimismo longe das raízes das árvores.

tenho que me prometer.

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Penso em Gaza, penso no olhar de uma criança chamada Amal, penso nos activistas que morreram, penso em Amos Oz, penso no Vanunu, penso na paz, penso na guerra, penso nos direitos humanos, penso em agir, penso em fugir, penso em agir. Penso.
 

Estradas Portuguesas: o retrato da falta de civismo dos portugueses.
OU
Como um condutor quase me atropela numa passadeira e ainda resmunga.

No último mês são umas atrás das outras. É só de mim ou estamos cada vez piores?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ao subir a avenida


Um
Dois passos
Dois
Dois passos
Três
Dois passos
Quatro
Três passos
Cinco
Cinco homens sem-abrigo à porta de um hotel

quinta-feira, 20 de maio de 2010



CAMPÂNULAS
de repente as malas parecem-me demasiado pequenas
que há demasiado a transportar

e que

o vazio também é cheio.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

preferia ser pássaro.
rochas e rochedos
penas e penedos
um coração vadio
confunde o seu amor

que já o tem e o deseja
mas em vaidade sobeja
não esconde receios seus

terça-feira, 11 de maio de 2010




Bright Star de Jane Campion
uma doce e dura ternura

domingo, 9 de maio de 2010

Chuva desolada no meu caminho
que as pétalas tardias que o habitam
se perdem na terra que as engole.