quinta-feira, 7 de outubro de 2010

assim, corrido, tal e qual

- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre à excepção de dois dias por ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades e quando a tempestade pára e as árvores deixam de gritar ouvimo-los gritar sobre a praia como degolados isso impede as crianças de dormir não eu ia-me embora

(...)

- É verdade que quando o vento pára nesta cidade é tão raro que nos sentimos como que abafados. Já reparei.»

em Moderato Cantabile, de Marguerite Duras

7-10
a poesia:
pouso, claridade desarrumada,
o sorriso guardado pelas nuvens
que protegem o chapinhar dos passos

as imagens:
nevoeiro
insectos
armários

a realidade:
o ardor nos pulmões
os passos acelerados do meu coração a chapinhar no sangue que me saiu pela boca hoje de manhã.
ardem-me os pulmões.

terça-feira, 5 de outubro de 2010


aprender a respirar
a ampliar os pulmões como um gesto

aprender a correr
sem estar presa



e em velocidade:

aprender a libertar a cabeça do que não interessa, olhar em frente, olhar o mundo, saltar a barreira que me separa da acção, largar as bandeiras, que o silêncio não perdure, que a ignorância não perdure, que a escola não minta, que os manuais escolares não mintam, que o respeito seja um valor universal, que ler é fundamental, que a consciência importa. aqui vai. partirei daqui.

«(...)Eli doesn't know if he can ever write a poem again
one third of the homeless men in this country are veterans
and we have the nerve to Support Our Troops
with pretty yellow ribbons
while giving nothing but dirty looks to their outstretched hands
tell me what land of the free
sets free its eighteen-year-old kids into greedy war zones
hones them like missiles
then returns their bones in the middle of the night
so no one can see
each death swept beneath the carpet and hidden like dirt
each life a promise we never kept
(...)»

Andrea Gibson, poet and activist
http://www.andreagibson.org/poems/poems_foreli.html
ficheiro audio no link (spoken word)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


só mais um apontamento:

hoje, onze da noite, silêncio nas ruas, a passear junto da linha do comboio enamorei-me pelo som da electricidade. a correr por dentro daqueles cabos como sangue nas veias, mas mais mortífero.
o meu estômago está embrulhado
protegido contra socos
já quase não me dói na barriga, sobe tudo imediatamente tronco acima até desaguar nos olhos
a dor toda em água
o coração, é sempre o mesmo, tanto de fraqueza quanto de dureza.

guardo muitos nevoeiros ainda por contar.

sábado, 25 de setembro de 2010



sou um ovo cru nas mãos de um gigante,

disseram-me hoje

considerarei isto como um bom elogio.