Mostrar mensagens com a etiqueta leituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta leituras. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de maio de 2013

densificar a pergunta - afinação


a solidão acompanhada aparece então como a vibração de escutar o acontecer entre. entre chegar-deixar chegar, entre célula e matriz, entre uma membrana e outra, mas também entre o desconhecido e o desconhecido. a afinação não é mensurável, pelo menos não com um dispositivo que a fixe. quando duchamp pergunta como fixámos o metro densifica a pergunta das coisas fixas.

solidão acompanhada, por sofia neuparth

sábado, 18 de maio de 2013

dos pássaros


«Nessa fase, estranhamente, os pássaros começam a oferecer-se-nos, atravessam-se-nos ao caminho nos sítios mais inesperados (no meio da cidade, até) e curam eles mesmos a leve angústia que sentimos quando deixou de haver tempo para sair de propósito ao encontro deles. E é o que nos salva.»

Depoimento sobre pássaros, de Gustavo Rubim

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

do sentir que é isto que dizes


«E as coisas fluem, devem fluir, quanto mais tempo melhor, e mesmo as palavras que então só dizemos só servem para exprimir aquilo que nós vivemos na relação amorosa, e isso não é necessariamente a essência do amor. Digo, és tão bonita, e exprimo não um juízo estético, mas um estado de alma, quero dizer que não há nada tão bonito como tu e que essa beleza me comove e é dessa comoção que irrompe o amor que sinto por ti. Percebes?»

António Mega Ferreira em A Expressão dos Afectos

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

«ACCOMPAGNATO
Uma ruga, o chão é uma ruga, se inclinarmos a cabeça encostando a orelha na relva húmida e macia apercebemo-nos dessa quase imperceptível flutuação do horizonte, como se a terra respirasse suavemente, numa contracção regular e repousada, sem sobressaltos nem susto.»

António Mega Ferreira, em A Expressão dos Afectos

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


«(...) a mais íntima de todas as experiências: como os indivíduos estão ligados uns aos outros e, no entanto, isolados por invisíveis tecidos de ritmos e por paredes de tempo ocultas.»

em A Dança da Vida de Edward T. Hall

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

do afundar-se


"Olhou à sua volta. «As casas...», pensou compassivo, e encolheu os ombros. As casas pareciam-lhe manter-se erguidas indevidamente, com uma espécie de coerência e estabilidade desajeitadas. As pessoas, atrás das janelas, levavam objectos de um lado para o outro, pondo as mesas para o jantar. «Como se alguém se preocupasse em fazer a cama numa cabine de um barco que está a afundar-se», pensou."

em A Ilha, de Sándor Márai

terça-feira, 4 de setembro de 2012

das pedras


«Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que importa.
Polo responde: - Sem pedras não há arco.»

Italo Calvino, As Cidade Invisíveis, 
trad. José Colaço Barreiros

sábado, 1 de setembro de 2012

na sala com Grão Kan e Marco Polo


«Caminhas sempre de cabeça virada para trás? - ou: - A tua viagem só se faz no passado?
Tudo para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou imaginarem que explicava ou conseguir finalmente explicar a si próprio que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que se tratasse do passado era um passado que mudava à medida que ele avançava na sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, digamos não o passado próximo a que cada dia que passa acrescenta um dia, mas o passado mais remoto. Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos.»

Italo Calvino, As Cidade Invisíveis, 
trad. José Colaço Barreiros

sábado, 28 de julho de 2012

no contexto da imobilidade


«Se a matemática fosse assim tão divina e universal, como conceber que a eliminação de uma única espécie - o Homem - de entre biliões de espécies existentes pudesse eliminar por completo essa lógica dos números em toda a superfície do planeta?»

Gonçalo M. Tavares, em Um Homem: Klaus Klump

quinta-feira, 12 de julho de 2012

do sublinhar da poesia de outros

1

Quebrar o silêncio
e depois recolher
os pedaços
testar-lhes o corte
o brilho
cego

Ana Martins Marques
"10 visitas ao lugar comum": http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-68/poesia/10-visitas-ao-lugar-comum

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

da mulher amada

Com a lentidão de quem se conhece há muito...

(...)

   Caminha.
desliza, resvala e não te detenhas nunca a meio da vertigem.

Maria Teresa Horta, Ana

do subtil

Hedda - Toma. Esta pistola já foi apontada a ti.
Lovborg - Devias ter disparado.
Hedda - Que seja belo.

José Maria Vieira Mendes, Hedda

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

assim, corrido, tal e qual

- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre à excepção de dois dias por ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades e quando a tempestade pára e as árvores deixam de gritar ouvimo-los gritar sobre a praia como degolados isso impede as crianças de dormir não eu ia-me embora

(...)

- É verdade que quando o vento pára nesta cidade é tão raro que nos sentimos como que abafados. Já reparei.»

em Moderato Cantabile, de Marguerite Duras

7-10