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sexta-feira, 18 de abril de 2014

taça



entre a leveza e o peso. 
entre o vazio e o cheio. 
entre o sono e o olhar.
entre a porta e a janela. 
entre o sorriso e o abraço. 
entre o dentro e o fora. 
entra. 
por dentro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

de seguido



costas, 
pedras, 
folhas, 
onda, 

pedras, 
costas, 
        redondo, 
dobras, 

segreda, 
ama, abraça, ri, 
chora, come, dorme, 

.
.
.

vai embora.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

do espaço vazio e das circunstâncias


numa voz doce e terna se grita "que se lixem as circunstâncias" e ferozmente se salta de um lugar para outro pelas dobras do corpo e arrancando os segredos dessas dobras. arrancar o coração e dividi-lo como gomos de laranja e, depois, deixem-me sozinha. irei escrever listas todos os dias. não fugir às tarefas. para desarrumar para desorganizar. porque só regressas para desarrumar. sempre. quanto mais tiveres menos terás. menos me terás. e perdes e perdes e perdes e perdes. e vais para a casa a perder. todos os dias. horas sem tempo. a vê-lo passar. aperta-o. esmiúça-o. porque me desamparo quando tropeço. tenho um buraco vazio do lado esquerdo. por dentro da barriga. poderia colocar outro coração nesse sítio e não posso e é por isso que quero chorar e não consigo. já deixei de conseguir chorar, é certo. e o olho direito está inflamado porque no nosso corpo os sinais funcionam sempre do avesso. descobri que são o que são e que sou o que sou e que afinal talvez não o saiba. que descobri palavras nas pedras da calçada porque talvez alguém as tenha gravado em segredo para alguém ler um dia. não existe mágoa quando se constrói. a minha boca está seca. seca, seca. há calor por dentro que seca tudo. calor por fora. o sol, a lua. os dias. hoje choveu. já escrevi na lista. e agora é contar os dias.

domingo, 13 de novembro de 2011

do pisar das folhas


as árvores despiram-se todas. 
o chão coberto das roupas das árvores.
  árvores e roupas
a exibirem-se em danças outonais.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

da partitura

Cordas. Amarras nos ouvidos.
Arrepio no ventrículo direito do coração.
Cordas. A sabedoria da composição. Branco
no branco. Corpos. Sobreposição dos corpos.
Aureolas azuis. Cordas. A dizerem:
Vê se te acordas. A visão azul do mundo.
O piano que repete. Acordas.
O sentir do arquear. Baloiço. Quando inclinas a
cabeça. Baloiças.
Olhos. Sem ver. Olhos. Que choras. Olhos.
Que acordas.
Acordo. Para o azul do mundo. Acordas.


(concerto do Max Richter)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

do fogo

calor no pé direito
ardor num dos olhos
chama no peito
incêndio na barriga

fogo pelo corpo todo
fogo pelos edifícios das ruas
fogo desenhado em asas de borboletas

o calor a resistir ao frio com malabarismos.

digo: ainda bem que começou a chover.

quarta-feira, 2 de março de 2011

lento cruzar dos dias
antecipação de luz
ou um pestanejar
que contém toda a vida.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

das batidas

tenho livros à cabeceira da cama que não consigo ler
tenho demasiadas palavras escritas em folhas que não são as que queria escrever

se o musgo aos meus pés me prende aos rochedos
de certeza de que não irão crescer os meus medos

se o meu coração entretanto parar
sei que é à terra que me devo agarrar

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

da beleza

uma rocha-vulcão
que me engoliu num véu de espuma
a violência com que a onda abraça
a rocha
e a violência com que a explosão me chegou
ao coração.
doeu.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

das janelas

as asas pesadas nas noites caladas
as janelas fechadas
a coruja que canta só quando o silêncio começa
e o som ecoa nas minhas janelas fechadas
o silêncio que se rompe
pelo eco das árvores paradas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

a poesia:
pouso, claridade desarrumada,
o sorriso guardado pelas nuvens
que protegem o chapinhar dos passos

as imagens:
nevoeiro
insectos
armários

a realidade:
o ardor nos pulmões
os passos acelerados do meu coração a chapinhar no sangue que me saiu pela boca hoje de manhã.
ardem-me os pulmões.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

«(...)Eli doesn't know if he can ever write a poem again
one third of the homeless men in this country are veterans
and we have the nerve to Support Our Troops
with pretty yellow ribbons
while giving nothing but dirty looks to their outstretched hands
tell me what land of the free
sets free its eighteen-year-old kids into greedy war zones
hones them like missiles
then returns their bones in the middle of the night
so no one can see
each death swept beneath the carpet and hidden like dirt
each life a promise we never kept
(...)»

Andrea Gibson, poet and activist
http://www.andreagibson.org/poems/poems_foreli.html
ficheiro audio no link (spoken word)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010



Curva de árvore
Frescura de uma brisa de Outono

Pétala dorida
A adormecer nas folhas secas do sono

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

quando há um rio que atravessa o nosso corpo
e o nosso corpo é um barco atracado
e o mar puxa-nos para dentro dele
ficamos confusos na luta.

quando as palavras atravessam o nosso corpo
e o nosso corpo é a palavra
que nos puxa para dentro dela
ficamos confusos na fuga.

domingo, 18 de julho de 2010


verdes círculos

perfeitas planícies

os planaltos segurando o céu

os rios a rasgar a terra como veias

pulsar das rochas pelo queimar do sol


a mim não me restam dúvidas:
a melhor visão do mundo, pertence ao pássaro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

salvam


lentas manhãs,
maçãs,
até chegarem às mãos

fazem saltar
o coração

as palavras




.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

rochas e rochedos
penas e penedos
um coração vadio
confunde o seu amor

que já o tem e o deseja
mas em vaidade sobeja
não esconde receios seus

domingo, 9 de maio de 2010

Chuva desolada no meu caminho
que as pétalas tardias que o habitam
se perdem na terra que as engole.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Dissipou-se a azáfama da hora de ponta
as carruagens respiram
a estação boceja
os segundos do relógio ecoam pelos túneis fora

a música dos segundos
o ritmo dos passos
a dança dos olhares

e a ponta fora das horas
e eu na ponta
aponto aqui e agora
a hora:
22h23.

(estação do Rossio)