os dias passam bruscos. as palavras saem bruscas. o coração é brusco. sempre pensei que com os anos aprendêssemos a comandar o nosso coração mas ainda me devem faltar mais alguns. sinto que estou quase, quase. as memórias são uma nuvem. os dias dentro dessa nuvem são tão pequenos. já passou o tempo de contar os anos pelos dedos das minhas mãos. a poesia desfaz-se na língua. proclamo a vida todos os segundos e o coração faz-se veloz. será correr demais? correrei demais? já não sinto as pernas tão cansadas. o meu corpo prepara-se para a viagem. já não sou alice, ja não sou a mesma alice. há quem saiba melhor do que eu. e o olhar. o olhar. o olhar. tão vivo. o olhar sempre vivo que às vezes só o quero cerrar. deixar-me um pouco. recolher-me. concha. corpo-concha. e então regressar à caminhada. que poderei saber mais sobre mim. que poderei saber mais sobre o caminho ou sobre as linhas ou sobre os pontos. montanhas. boca. fala. mudez. gaguez. que o medo é só no princípio. e depois: a viagem.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
sábado, 24 de maio de 2014
do guardar
alguém escreveu num papel e afixou na parede da sala: o amor é o coração bater muito depressa. e o meu coração bate sempre muito e muito depressa. regressei às raízes, viajei rumo ao douro, onde o coração amplia, ganha espaço, suaviza. ali o amor é feito de ar. não há serra como esta. nem carinho como este. no retorno, a(s) possibilidade(s). infinitas possibilidades - ficar ou partir. fui relembrada da efemeridade da vida. uma estrela ficou mais brilhante por uma alma que partiu cedo demais. tanto para aprender ainda. tantos abraços para dar e o desejo de que nenhum seja adiado. e há tanto para fazer. sempre tanto por fazer. fecho os olhos e vejo paisagem. vejo a efemeridade das paisagens e dos rostos. quantos rostos sei ainda desenhar perfeitos por debaixo das pálpebras? quantos contornos falharei? quantas memórias conseguirei guardar? quantas vezes baterá ainda o meu coração, que bate sempre tão depressa, por dor ou amor. guardarei todos os sorrisos. incluindo o da c. como o mais precioso tesouro.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
taça
entre a leveza e o peso.
entre o vazio e o cheio.
entre o sono e o olhar.
entre a porta e a janela.
entre o sorriso e o abraço.
entre o dentro e o fora.
entra.
por dentro.
terça-feira, 4 de março de 2014
das quedas
pedaços de escrita pelas paredes. pedaços perdidos pelas camadas densas e sombrias de florestas. as corujas pouco se deixam ouvir agora. a neblina ainda não levantou. a serra continua densa e coberta por nevoeiro. as árvores ainda se agitam e já não parecem saber dançar. um coração ansioso por dentro delas. vão perdendo membros, troncos, como os pedaços de escrita. os pensamentos são demasiado rápidos. continua ansiedade. ao ponto do sangue se esquecer do seu percurso e não descer até à ponta dos dedos. até essa dormência acordar o susto. até esse susto se transformar em amor. não sei ainda o que guarda o interior da minha pele, no ventre, no colo. o sangue não desce. e aqueles pedaços de escrita vão evaporando e confundem-se com as árvores. agitadas pelo vento. os dias no calendário atropelam-se. estamos em março. já estamos em março. apenas um dia no calendário está vazio. apenas um dia e é amanhã e é já hoje e já foi. e o coração continua e vou agitando as asas mais devagar e fechando-as e guardando-as. vou guardar as minhas asas por alguns dias ou meses ou talvez anos. as desilusões são também sustos que assaltam o coração. nem sempre o corpo tem força. nem sempre a voz se quer fazer ouvir. a voz quebra. não se faz ouvir para não estremecer. mas os joelhos estão mais fortes e com os dias podemos sempre aprender. um a seguir ao outro. é só deixar um dia continuar a seguir ao outro. mesmo que se atropelem. mesmo que esses dias continuem a deixar cair algumas das árvores. é condição da vida existir a morte. existir a queda. a minha cabeça roda e gira e roda e não consigo alcançar o fundo. demasiado profundo. mas continuo a cair. outra vez alice. uma e outra vez.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
dos últimos meses
desde outubro. as cartas não se silenciaram e mais prisioneiros foram libertados. os pássaros voam e cada vez com menos medo. há contudo uma necessidade urgente de cuidar. cada vez mais. as mais de cem páginas foram escritas; foram mesmo escritas e deixei-me cair sobre alguns (poucos) dias de inércia. dois processos. Uma Odisseia que tanto prazer dá atravessar. o meu corpo está pousado, silencioso, cansado também. um ano, mais um ano, chega ao fim. guardo incríveis paisagens, momentos, sorrisos como grandes tesouros. preparo o próximo que aí vem. sem grande expectativa e já como uma grande aventura para começar. mais uma vez: romperei silêncios. talvez faça nascer outros novos, os da vergonha, do medo. mas que se fale do que ninguém fala. continuo a abraçar-me às causas. continuo a acreditar que é mesmo possível fazer a diferença e que é possível um mundo melhor. que 2014 seja assim: cheio de esperança.
2013: corpo em movimento; um monte em vila velha de ródão; espaço vazio que é cheio; rotas a pé; escrita; saydoun; istambul; gestos; sem rede; homero; tese; melhor prenda de natal de sempre; amor-muito.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
do então
as mãos tremem novamente. a escrita está embrulhada. quero dizer, está guardada, quero dizer, está condicionada. estarei eu. há um documento em aberto. dois. três. registos. essa ideia de memória. e tudo se guarda. fotografias, palavras, papiros, paredes, ruínas. arqueologia. poesia arcaica. cidades-estado. a percepção da história cíclica. o círculo. e vamos lá parar outra vez? e é um espelho o que temos afinal/no final. e eu, Alice, do outro lado. nego este mundo assim como está. nego-o. as cartas prosseguem. a voz não se silencia. afinal pertence-nos a língua, a linguagem, as palavras. tudo se embrulha então. mas neste momento são 100 páginas que me puxam para um final - que se feche. que se feche esse ciclo também. que se abram outros. que as portas sejam janelas e as janelas portas e o medo seja mentira. o medo é uma mentira. e estreia hoje. sem rede. e então é isto. e então o corpo. e então o olhar. e então a plateia. e então escuto e então guardo. a escrita chegará talvez nos próximos dias. e ultrapassará as 100 páginas. e poderá trazer uma primavera por dentro de um inverno. e um corpo-pensante. circundo-as-palavras-que-se-calam.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
dos corpos deitados
regresso para perto do oceano. aqui estou. com o sol a deitar-se em mais um final de dia. e tantos dias passam e tanto o coração aperta. tantos corpos se deitam em tantos finais de dia que ainda são de dia. tanta injustiça que caminha lado-a-lado com tamanha beleza. e que tamanho temos. e que tamanho têm as montanhas viradas para o mediterrâneo. as fronteiras, a ideia de fronteira, altera-se, agiganta-se. a fronteira traz o medo, a insegurança. a fronteira é a guerra. a fronteira não são rios mas sim mapas manchados de sangue. não consigo virar a cara. fico parada alguns momentos no mesmo sítio com os olhos a inundarem-se de lágrimas. são armas. e são pessoas que morreram ou estão a morrer à entrada dos hospitais e são tantas as crianças. e as mães gritam. e ouço gritos de mulheres. e as câmaras tremem e as imagens dificilmente mentem. e agora? e agora que caminho com o coração cheio de sorrisos e disponibilidade e visão. e fecho os olhos e ainda ouço os grilos e ainda cheiro a humidade do mar e ainda ouço as árvores e ainda vejo os sorrisos e ainda ouço as vozes e os cânticos e ainda danço. e o meu coração dança e rodopia e fico tonta e tão tonta com beleza tamanha. mas o meu coração fica parado. e os meus olhos ficam inundados de lágrimas quando as imagens gritam a injustiça, quando as fronteiras são guerra, porque quando o mundo pára-páro com ele.
(entre líbano/portugal/síria)
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