pedaços de escrita pelas paredes. pedaços perdidos pelas camadas densas e sombrias de florestas. as corujas pouco se deixam ouvir agora. a neblina ainda não levantou. a serra continua densa e coberta por nevoeiro. as árvores ainda se agitam e já não parecem saber dançar. um coração ansioso por dentro delas. vão perdendo membros, troncos, como os pedaços de escrita. os pensamentos são demasiado rápidos. continua ansiedade. ao ponto do sangue se esquecer do seu percurso e não descer até à ponta dos dedos. até essa dormência acordar o susto. até esse susto se transformar em amor. não sei ainda o que guarda o interior da minha pele, no ventre, no colo. o sangue não desce. e aqueles pedaços de escrita vão evaporando e confundem-se com as árvores. agitadas pelo vento. os dias no calendário atropelam-se. estamos em março. já estamos em março. apenas um dia no calendário está vazio. apenas um dia e é amanhã e é já hoje e já foi. e o coração continua e vou agitando as asas mais devagar e fechando-as e guardando-as. vou guardar as minhas asas por alguns dias ou meses ou talvez anos. as desilusões são também sustos que assaltam o coração. nem sempre o corpo tem força. nem sempre a voz se quer fazer ouvir. a voz quebra. não se faz ouvir para não estremecer. mas os joelhos estão mais fortes e com os dias podemos sempre aprender. um a seguir ao outro. é só deixar um dia continuar a seguir ao outro. mesmo que se atropelem. mesmo que esses dias continuem a deixar cair algumas das árvores. é condição da vida existir a morte. existir a queda. a minha cabeça roda e gira e roda e não consigo alcançar o fundo. demasiado profundo. mas continuo a cair. outra vez alice. uma e outra vez.
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
dos últimos meses
desde outubro. as cartas não se silenciaram e mais prisioneiros foram libertados. os pássaros voam e cada vez com menos medo. há contudo uma necessidade urgente de cuidar. cada vez mais. as mais de cem páginas foram escritas; foram mesmo escritas e deixei-me cair sobre alguns (poucos) dias de inércia. dois processos. Uma Odisseia que tanto prazer dá atravessar. o meu corpo está pousado, silencioso, cansado também. um ano, mais um ano, chega ao fim. guardo incríveis paisagens, momentos, sorrisos como grandes tesouros. preparo o próximo que aí vem. sem grande expectativa e já como uma grande aventura para começar. mais uma vez: romperei silêncios. talvez faça nascer outros novos, os da vergonha, do medo. mas que se fale do que ninguém fala. continuo a abraçar-me às causas. continuo a acreditar que é mesmo possível fazer a diferença e que é possível um mundo melhor. que 2014 seja assim: cheio de esperança.
2013: corpo em movimento; um monte em vila velha de ródão; espaço vazio que é cheio; rotas a pé; escrita; saydoun; istambul; gestos; sem rede; homero; tese; melhor prenda de natal de sempre; amor-muito.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
do então
as mãos tremem novamente. a escrita está embrulhada. quero dizer, está guardada, quero dizer, está condicionada. estarei eu. há um documento em aberto. dois. três. registos. essa ideia de memória. e tudo se guarda. fotografias, palavras, papiros, paredes, ruínas. arqueologia. poesia arcaica. cidades-estado. a percepção da história cíclica. o círculo. e vamos lá parar outra vez? e é um espelho o que temos afinal/no final. e eu, Alice, do outro lado. nego este mundo assim como está. nego-o. as cartas prosseguem. a voz não se silencia. afinal pertence-nos a língua, a linguagem, as palavras. tudo se embrulha então. mas neste momento são 100 páginas que me puxam para um final - que se feche. que se feche esse ciclo também. que se abram outros. que as portas sejam janelas e as janelas portas e o medo seja mentira. o medo é uma mentira. e estreia hoje. sem rede. e então é isto. e então o corpo. e então o olhar. e então a plateia. e então escuto e então guardo. a escrita chegará talvez nos próximos dias. e ultrapassará as 100 páginas. e poderá trazer uma primavera por dentro de um inverno. e um corpo-pensante. circundo-as-palavras-que-se-calam.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
dos corpos deitados
regresso para perto do oceano. aqui estou. com o sol a deitar-se em mais um final de dia. e tantos dias passam e tanto o coração aperta. tantos corpos se deitam em tantos finais de dia que ainda são de dia. tanta injustiça que caminha lado-a-lado com tamanha beleza. e que tamanho temos. e que tamanho têm as montanhas viradas para o mediterrâneo. as fronteiras, a ideia de fronteira, altera-se, agiganta-se. a fronteira traz o medo, a insegurança. a fronteira é a guerra. a fronteira não são rios mas sim mapas manchados de sangue. não consigo virar a cara. fico parada alguns momentos no mesmo sítio com os olhos a inundarem-se de lágrimas. são armas. e são pessoas que morreram ou estão a morrer à entrada dos hospitais e são tantas as crianças. e as mães gritam. e ouço gritos de mulheres. e as câmaras tremem e as imagens dificilmente mentem. e agora? e agora que caminho com o coração cheio de sorrisos e disponibilidade e visão. e fecho os olhos e ainda ouço os grilos e ainda cheiro a humidade do mar e ainda ouço as árvores e ainda vejo os sorrisos e ainda ouço as vozes e os cânticos e ainda danço. e o meu coração dança e rodopia e fico tonta e tão tonta com beleza tamanha. mas o meu coração fica parado. e os meus olhos ficam inundados de lágrimas quando as imagens gritam a injustiça, quando as fronteiras são guerra, porque quando o mundo pára-páro com ele.
(entre líbano/portugal/síria)
quinta-feira, 25 de julho de 2013
da sociedade civil
«Se o poder político é, em Portugal, sensível a todas
as pressões, menos às dos cidadãos, não é porque ele seja diferente de
outros, no resto da Europa. É porque a nossa sociedade civil é pouco ativa, pouco persistente e pouco exigente.
Quando se mexe, quando insiste, quando não espera que a realidade mude
apenas com uma manifestação, em Setembro, os resultados acabam por se
sentir. Depois da aprovação da nova lei, a realidade dos falsos recibos verdes não mudará de um dia para o outro. Mas melhorará um pouco. Porque estas guerras levam tempo e dão trabalho. Fazem-se de pequenas batalhas. E esta foi ganha.»
Daniel Oliveira, Antes pelo contrário, no Expresso
quinta-feira, 18 de julho de 2013
dos joelhos e dos traumas
os peixes também sangram. um maxilar bem desenhado. rectângulo. joelhos traumatizados. narrar um rasgo laranja-amarelo no horizonte que não se mexe e ser brindada com visões poéticas de pessoas com menos de um década. os políticos iniciam as campanhas que nos jornais são traduzidas para corridas e de repente estamos todos a observar uma maratona. continuo na observação do movimento, dos movimentos. na prática. um monte de roupa enlaçado em dois cestos e a minha vontade em atirar-me lá para cima, gritar um pouco, lançar ao ar. made in china e um desafio para 30 dias. caminhar pelas ruas sentindo a potencialidade dessas ruas sentindo até um pedaço de medo sentindo até um pedaço de calor-frio sentindo até uma vontade de construir. construir reconstruir. continuar. rotando. mas uma tese não se escreve sozinha. há também grades que precisam de derreter. ainda. muitas. e as velas parecem ser cada vez menos. as pessoas caminham em silêncio, olham-se em silêncio, algumas já não se olham. são amigas no facebook mas não se cumprimentam na rua. uma canção. a violência de uma dança. a violência da não-violência. uns joelhos traumatizados. uma viagem a adivinhar-se uma aventura inominável. rectângulo redondo dentro de um mapa. traumas. mercadoria. projectos. desenhos. maxilar. ossos. roupa. corpo. documento. segredo.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
das asas
um abrandamento dos passos ao mesmo tempo que o coração acelera. é um fenómeno, está a perceber? como se tivesse uma parede muito forte, muito resistente, uma película que não poderei chamar pele nem músculo nem membrana. é qualquer coisa inominável. atravessa sem atravessar? não sai do peito saindo. e lá estou eu às voltas de um coração que também rodopia. um abrandamento dos passos enquanto o mundo se amplia. enquanto as asas dos pássaros se abrem ou enquanto um casal de andorinhas se prepara para dormir no fio do terraço daquela casa. e há pássaros que abrem as suas asas mas parece que mais ninguém repara. o calor é tanto que as árvores são invadidas de grilos em histeria durante a luz do dia e discretos vão invadindo depois o silêncio da noite-das casas. electricidade no ar. os passos abrandam ao mesmo tempo que abranda ligeiramente o dia: a luz abre. o sol despede-se a cada dia um pouco mais tarde um pouco mais cedo. e eu atravesso. e vou de mãos dadas. quem disse que o verão não chegava?
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