sexta-feira, 11 de outubro de 2013

do então



as mãos tremem novamente. a escrita está embrulhada. quero dizer, está guardada, quero dizer, está condicionada. estarei eu. há um documento em aberto. dois. três. registos. essa ideia de memória. e tudo se guarda. fotografias, palavras, papiros, paredes, ruínas. arqueologia. poesia arcaica. cidades-estado. a percepção da história cíclica. o círculo. e vamos lá parar outra vez? e é um espelho o que temos afinal/no final. e eu, Alice, do outro lado. nego este mundo assim como está. nego-o. as cartas prosseguem. a voz não se silencia. afinal pertence-nos a língua, a linguagem, as palavras. tudo se embrulha então. mas neste momento são 100 páginas que me puxam para um final - que se feche. que se feche esse ciclo também. que se abram outros. que as portas sejam janelas e as janelas portas e o medo seja mentira. o medo é uma mentira. e estreia hoje. sem rede. e então é isto. e então o corpo. e então o olhar. e então a plateia. e então escuto e então guardo. a escrita chegará talvez nos próximos dias. e ultrapassará as 100 páginas. e poderá trazer uma primavera por dentro de um inverno. e um corpo-pensante. circundo-as-palavras-que-se-calam.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

dos corpos deitados



regresso para perto do oceano. aqui estou. com o sol a deitar-se em mais um final de dia. e tantos dias passam e tanto o coração aperta. tantos corpos se deitam em tantos finais de dia que ainda são de dia. tanta injustiça que caminha lado-a-lado com tamanha beleza. e que tamanho temos. e que tamanho têm as montanhas viradas para o mediterrâneo. as fronteiras, a ideia de fronteira, altera-se, agiganta-se. a fronteira traz o medo, a insegurança. a fronteira é a guerra. a fronteira não são rios mas sim mapas manchados de sangue. não consigo virar a cara. fico parada alguns momentos no mesmo sítio com os olhos a inundarem-se de lágrimas. são armas. e são pessoas que morreram ou estão a morrer à entrada dos hospitais e são tantas as crianças. e as mães gritam. e ouço gritos de mulheres. e as câmaras tremem e as imagens dificilmente mentem. e agora? e agora que caminho com o coração cheio de sorrisos e disponibilidade e visão. e fecho os olhos e ainda ouço os grilos e ainda cheiro a humidade do mar e ainda ouço as árvores e ainda vejo os sorrisos e ainda ouço as vozes e os cânticos e ainda danço. e o meu coração dança e rodopia e fico tonta e tão tonta com beleza tamanha. mas o meu coração fica parado. e os meus olhos ficam inundados de lágrimas quando as imagens gritam a injustiça, quando as fronteiras são guerra, porque quando o mundo pára-páro com ele. 

(entre líbano/portugal/síria)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

da sociedade civil


«Se o poder político é, em Portugal, sensível a todas as pressões, menos às dos cidadãos, não é porque ele seja diferente de outros, no resto da Europa. É porque a nossa sociedade civil é pouco ativa, pouco persistente e pouco exigente. Quando se mexe, quando insiste, quando não espera que a realidade mude apenas com uma manifestação, em Setembro, os resultados acabam por se sentir. Depois da aprovação da nova lei, a realidade dos falsos recibos verdes não mudará de um dia para o outro. Mas melhorará um pouco. Porque estas guerras levam tempo e dão trabalho. Fazem-se de pequenas batalhas. E esta foi ganha.» 
Daniel Oliveira, Antes pelo contrário, no Expresso
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

dos joelhos e dos traumas


os peixes também sangram. um maxilar bem desenhado. rectângulo. joelhos traumatizados. narrar um rasgo laranja-amarelo no horizonte que não se mexe e ser brindada com visões poéticas de pessoas com menos de um década. os políticos iniciam as campanhas que nos jornais são traduzidas para corridas e de repente estamos todos a observar uma maratona. continuo na observação do movimento, dos movimentos. na prática. um monte de roupa enlaçado em dois cestos e a minha vontade em atirar-me lá para cima, gritar um pouco, lançar ao ar. made in china e um desafio para 30 dias. caminhar pelas ruas sentindo a potencialidade dessas ruas sentindo até um pedaço de medo sentindo até um pedaço de calor-frio sentindo até uma vontade de construir. construir reconstruir. continuar. rotando. mas uma tese não se escreve sozinha. há também grades que precisam de derreter. ainda. muitas. e as velas parecem ser cada vez menos. as pessoas caminham em silêncio, olham-se em silêncio, algumas já não se olham. são amigas no facebook mas não se cumprimentam na rua. uma canção. a violência de uma dança. a violência da não-violência. uns joelhos traumatizados. uma viagem a adivinhar-se uma aventura inominável. rectângulo redondo dentro de um mapa. traumas. mercadoria. projectos. desenhos. maxilar. ossos. roupa. corpo. documento. segredo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

das asas


um abrandamento dos passos ao mesmo tempo que o coração acelera. é um fenómeno, está a perceber? como se tivesse uma parede muito forte, muito resistente, uma película que não poderei chamar pele nem músculo nem membrana. é qualquer coisa inominável. atravessa sem atravessar? não sai do peito saindo. e lá estou eu às voltas de um coração que também rodopia. um abrandamento dos passos enquanto o mundo se amplia. enquanto as asas dos pássaros se abrem ou enquanto um casal de andorinhas se prepara para dormir no fio do terraço daquela casa. e há pássaros que abrem as suas asas mas parece que mais ninguém repara. o calor é tanto que as árvores são invadidas de grilos em histeria durante a luz do dia e discretos vão invadindo depois o silêncio da noite-das casas. electricidade no ar. os passos abrandam ao mesmo tempo que abranda ligeiramente o dia: a luz abre. o sol despede-se a cada dia um pouco mais tarde um pouco mais cedo. e eu atravesso. e vou de mãos dadas. quem disse que o verão não chegava?

domingo, 26 de maio de 2013

da criação-comunicação


queria(?) narrar sobre a vida que tem escorrido das árvores e da morte dos seus membros. da perda de partes. da criação de espaços para criação de vida. da morte como criação de vida. da insistência última em ver por dentro do fora. em virar do avesso sem desfazer. danço com as árvores e embalo-me com o vento brando. uma árvore não está imóvel - as suas raízes nunca deixam de crescer - de se movimentar - de adentrarem ainda mais na terra - de se expandirem por debaixo do sol/solo - abarcando - devolvendo - aconchegando. e vai crescendo - dançando a sua verticalidade. um desafio às leis da gravidade. e nós também. verticais. danço na vertical. o corpo escorrega para cima. entre o céu e a terra e o invisível. uma árvore podada é a perna do m. o seio da e. a trompa da s. é o espaço vazio que fica por dentro do contorno. o desenho não desaparece. é a dor fantasma. porque a vida continua lá. entendamos: a vida é a consequência da vida. e a morte nasce connosco desde que somos célula.

domingo, 19 de maio de 2013

da ruína


residência artística em vila velha de ródão | tapada da tojeira
[video_still]