um abrandamento dos passos ao mesmo tempo que o coração acelera. é um fenómeno, está a perceber? como se tivesse uma parede muito forte, muito resistente, uma película que não poderei chamar pele nem músculo nem membrana. é qualquer coisa inominável. atravessa sem atravessar? não sai do peito saindo. e lá estou eu às voltas de um coração que também rodopia. um abrandamento dos passos enquanto o mundo se amplia. enquanto as asas dos pássaros se abrem ou enquanto um casal de andorinhas se prepara para dormir no fio do terraço daquela casa. e há pássaros que abrem as suas asas mas parece que mais ninguém repara. o calor é tanto que as árvores são invadidas de grilos em histeria durante a luz do dia e discretos vão invadindo depois o silêncio da noite-das casas. electricidade no ar. os passos abrandam ao mesmo tempo que abranda ligeiramente o dia: a luz abre. o sol despede-se a cada dia um pouco mais tarde um pouco mais cedo. e eu atravesso. e vou de mãos dadas. quem disse que o verão não chegava?
sexta-feira, 28 de junho de 2013
domingo, 26 de maio de 2013
da criação-comunicação
queria(?) narrar sobre a vida que tem escorrido das árvores e da morte dos seus membros. da perda de partes. da criação de espaços para criação de vida. da morte como criação de vida. da insistência última em ver por dentro do fora. em virar do avesso sem desfazer. danço com as árvores e embalo-me com o vento brando. uma árvore não está imóvel - as suas raízes nunca deixam de crescer - de se movimentar - de adentrarem ainda mais na terra - de se expandirem por debaixo do sol/solo - abarcando - devolvendo - aconchegando. e vai crescendo - dançando a sua verticalidade. um desafio às leis da gravidade. e nós também. verticais. danço na vertical. o corpo escorrega para cima. entre o céu e a terra e o invisível. uma árvore podada é a perna do m. o seio da e. a trompa da s. é o espaço vazio que fica por dentro do contorno. o desenho não desaparece. é a dor fantasma. porque a vida continua lá. entendamos: a vida é a consequência da vida. e a morte nasce connosco desde que somos célula.
domingo, 19 de maio de 2013
densificar a pergunta - afinação
a solidão acompanhada aparece então como a vibração de escutar o
acontecer entre. entre chegar-deixar chegar, entre célula e matriz,
entre uma membrana e outra, mas também entre o desconhecido e o
desconhecido. a afinação não é mensurável, pelo menos não com um
dispositivo que a fixe. quando duchamp pergunta como fixámos o metro
densifica a pergunta das coisas fixas.
solidão acompanhada, por sofia neuparth
sábado, 18 de maio de 2013
dos pássaros
«Nessa fase, estranhamente, os pássaros começam a oferecer-se-nos, atravessam-se-nos ao caminho nos sítios mais inesperados (no meio da cidade, até) e curam eles mesmos a leve angústia que sentimos quando deixou de haver tempo para sair de propósito ao encontro deles. E é o que nos salva.»
Depoimento sobre pássaros, de Gustavo Rubim
terça-feira, 16 de abril de 2013
(ainda) do movimento
em movimento contínuo não sei ainda bem a que velocidade. dentro do corpo. a adentrar no corpo. na escuta. um estado de alerta constante. um cansaço que vai chegando e eu a tentar mandá-lo embora. ainda a espera. tantas vezes a espera. e surgem perguntas: Perguntar! um limbo entre a euforia e a apatia. as ruas a desenharem os mapas das cidades e as árvores com os seus mapas próprios nos troncos e a minha geografia inteira dentro disto tudo. deste mundo inteiro. desta maravilha toda. que tem tanta merda. encontrar novas perguntas a cada dia. onde mora a tua atenção? eu vou passeando a minha pelo agora. talvez por isso fuja aos textos, à academia, à literatura. venha um pouco de filosofia. venha o pensamento-movimento. convocarei as superfícies de encontro.
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