segunda-feira, 7 de novembro de 2011

da partitura

Cordas. Amarras nos ouvidos.
Arrepio no ventrículo direito do coração.
Cordas. A sabedoria da composição. Branco
no branco. Corpos. Sobreposição dos corpos.
Aureolas azuis. Cordas. A dizerem:
Vê se te acordas. A visão azul do mundo.
O piano que repete. Acordas.
O sentir do arquear. Baloiço. Quando inclinas a
cabeça. Baloiças.
Olhos. Sem ver. Olhos. Que choras. Olhos.
Que acordas.
Acordo. Para o azul do mundo. Acordas.


(concerto do Max Richter)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

do relembrar


“What the hell makes you so smart?” I asked.
“I wouldn’t go for coffee with you,” she answered.
“Listen – I wouldn’t ask you.”
“That,” she replied, “is what makes you stupid.”





lido há vários anos atrás, no piroso Love Story, que me veio parar novamente às mãos no dia de hoje.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

do fogo

calor no pé direito
ardor num dos olhos
chama no peito
incêndio na barriga

fogo pelo corpo todo
fogo pelos edifícios das ruas
fogo desenhado em asas de borboletas

o calor a resistir ao frio com malabarismos.

digo: ainda bem que começou a chover.

sábado, 24 de setembro de 2011

de Notredame


Notredame, upload feito originalmente por sossego.


e do regresso breve.

do abraço


o abraço é um eliminar do vazio entre os corpos. o abraço é o apertar do querer. o abraço é vida quando ela percorre todo o gesto. o abraço é a saudade de quando não se sente esse abraço há tempo demais. o abraço é o céu que beija a terra quando sorri. o abraço é a terra que nos segura os pés. o abraço são os peitos das pessoas a rirem. o abraço é o conforto na sua plenitude. o abraço é o adormecer no cansaço dos dias. o abraço é o dizer: estou aqui. o abraço é tudo o que tiver que ser.

era isto que queria dizer. não eram as palavras de mais ninguém.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

do estofo


O que é não ter estofo? É não ter uma capa a proteger os órgãos internos do meu corpo? É por isso que o meu coração quase salta pela boca e o estômago dilata e o fígado tem pontadas? É por isso que escrevo tantas vezes sobre o meu corpo, porque ele dói? Quando eu canto a minha voz fica mais bonita. E eu canto só para mim por isso mais ninguém pode dizer que a minha voz não fica mais bonita. «Mãe, o que é o escuro?» Sabes que ainda me faço essa pergunta? E foi por isso que chorei naquele dia? Porque o escuro são as palavras que ouço da boca de pessoas cinzentas. Tenho medo do escuro. Ainda assim, enfrento o medo todos os dias. Mas agora estou a escrever porque o meu coração está a doer e eu tenho medo quando ele dói. Foi-me diagnosticado palpitações. Será que é isto não ter estofo?


estofo |ô|
s. m.

1. Tecido, pano.
2. Algodão, lã, crina, etc., para chumaços.
3. Enchimento (de tecido, espuma, etc.) que preenche o interior dos móveis que servem para assento ou encosto.
4. Entretela, chumaço.
5. Desenho feito com ponteiro (levantando o dourado).
Fonte: Priberam 
 
 
E é assim que de repente me sinto um sofá. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

da violência



sussurro nervoso das artérias que ligam ao coração, não me escondo do tremor, enfrento-o com as pernas fracas mas com o coração incendiado. não tenho controlo sobre os meus próprios pulsos e punhos que se encerram sobre si próprios e se envolvem na violência do gesto, a prender a vontade de esmurrar. tenho me defendido sempre com as palavras. são sempre as palavras que salvam. e os olhos, que sem piscar, transmitem a luz que nunca se apaga: não me vences, és igual a mim, não me vences. que se cale a violência - que se solte nas palavras escritas - que a mudança se faça assim - estúpida, mas lúcida.