domingo, 17 de abril de 2016

do todo


«Ao pensar no imenso impacto que pequenos gestos podem causar, chega-se à conclusão de que cada pequeno acto é importante. Essa é a relação de interdependência: a consciência de que o todo depende de um único indivíduo e que cada indivíduo depende do todo para existir».

Nazaré Fernandes, laureada do Prémio Norte-Sul em 2001
Maio 2010, Le Monde Diplomatique - versão portuguesa.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

das magnólias


As magnólias já estão em flor. Duram tão pouco tempo, as magnólias. E na sua fragilidade decidem despertar quase sempre em dias de chuva e vento. Hoje falámos do tempo. Não da chuva, mas da velocidade. O tema é recorrente, surge tantas e tantas vezes. E depois pensei que também as palavras são velozes e é necessário fazê-las parar. Assim, registá-las. Deixá-las sair, mas não as deixar fugir. E vim para aqui. E é tudo muito simples. Estava no alto da montanha, nos penhascos, a ver os grifos voarem. E eu estava a vê-los de cima. E é belo, sim. Nós por cima dos pássaros. Dos grifos. Envergadura média de 2,45m. Dá vontade de ficar agarrada aos binóculos durante horas a vê-los planar. Posso só ficar ali, mais um bocadinho? Por que tão poucas vezes paramos para contemplar? Demoro o olhar. Em ti, nos pássaros, nos penhascos. Sabe a muito pouco. Prometi a mim mesma que pararia de falar do meu coração. Tem rasgos. Abrem-se buracos. Palpitações. E poderia ser tão diferente, tudo tão mais calmo, pueril. Li na capa de uma revista, na montra do jornal, na rua pedonal: "porque é que as pessoas são más?" Era uma actriz que sei estar a sofrer com um cancro, não sei mais. E senti-me comovida e próxima. É exactamente isso que me pergunto, quase todos os dias. Porquê, então? E as guerras pioram dia-a-dia. E as lágrimas já estão quase secas. Hoje faço um pouco mais do que fazia há uns meses atrás. O medo é diferente, quase inexistente. Acredito agora que tudo rodeia muito mais em torno da maldade, do ódio. Ó mundo: pára um pouco que eu quero sair. gosto tanto de ti. porque dóis? entretanto, sejamos firmes, tu e eu. Estarei em ti até ao fim. Peço-te apenas, por favor, com menos maldade, pode ser?

domingo, 12 de julho de 2015

do céu



As andorinhas também voam em dias de chuva.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

um, dois, três


ainda tenho nuvens nas pontas dos dedos das mãos. ainda frases que se repetem na minha cabeça. imagens caóticas. pesadelos. encontros e desencontros. equilibrismos. flores nos cabelos. mas o meu corpo é feito de estilhaços. inicio as batalhas. após tantos anos de um jogo de forças. ossos, articulações, veias, órgãos. um, dois, três. ressonâncias. máquinas. que eu sou uma máquina, dizem. e toda a máquina avaria. e: um, dois, três. não me vou deixar vencer e: um, dois, três. com os anos acumulam-se os pesos. tudo pesa. e o desafio é enlevecer. o amor vence. o amor vence. dou as mãos. encosto a cabeça. sorrio como quando há nove anos atrás. e as águias ainda resistem. olho para elas. não há caça que as extermine. não há, não pode haver. e eu estou aqui. ainda estou aqui. e respiro. e sinto a saliva e uma corrente de ar quente a circular por dentro. e o ardor que ainda aqui está. vivo. viva.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

quantas vezes já o mencionei?



Lição número 1, sobre a solidão: 
tudo reside no silêncio.
Lição número 2, sobre o medo: 
podes sempre espreitar por debaixo da cama.
Lição número 3, sobre o corpo: 
arde.
Lição número 4, sobre o amor: 
.
.
.

tudo é mutável. até as tuas mãos.



para já:
ardo e ardo e ardo e ardo
este ardor por baixo da barriga
do lado direito
quase na dobra da perna



e por dentro
a vida a querer surgir
a surgir vida




Lição Última:
Enquanto estiver viva, estou viva.
Quando a morte chegar, chegou.
No entretanto: ardes e ardes e ardes e aprendes a lidar com a dor.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

do dual



o meu coração explodiu. um cometa aterrou no meu coração e desfez parte dele. está quase em pedaços. e vai minando tudo o resto. o meu ventre está frágil, por um fio. uma golpe de sangue me sai pela boca. e um vento frio pelos ossos. sou um corpo em ruína. como sempre o mundo não pára e apetece pedir que pare. que me deixe sair. como aquela música que tocou na rádio no outro dia. e mordo o volante. porque conduzo para me perder. para me perder. estou constantemente a perder-me. preciso de conhecer melhor esta cidade. estas cidades. preciso de me conhecer melhor. perder outras coisas mas não perder-me. não perder-me a mim. como me perdi. em pedaços. espalhada por todo o lado. em ruínas. uma catástrofe. porque me arruínas. me arruínas. me destróis. porque o meu coração me destrói. porque dói. dóis. dois. tanto.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

do vestido



cada vez mais fundo. acho que aprendi a mentir. acho que aprendi a mentir a mim própria. ou já me mentia? ou já me afundava? saberei quem sou ou quem penso que sou? há tantas pontas soltas no meu vestido. não me quero vestir mais. não me quero vestir. afinal a terra não me engoliu. ainda não. que ninguém me agarre. que ninguém me agarre. i just want to be alone. um grito preso no peito como um pássaro enjaulado. às voltas às voltas às voltas. como se não tivesse escolha. se eu desaparecer, não me procurem. por um bocadinho, não me procurem.