quinta-feira, 21 de junho de 2012

da distância que se corre


movimento subtil das pestanas a acompanharem o lento fechar dos olhos. o cansaço de um corpo que já não resiste ao vento. à ventania. as portadas das janelas a baterem. a chuva a cair mansa, quase não se ouve. e as janelas a baterem nas portadas a abafar o som do chão molhado, a ser molhado. uma lágrima presa por dentro que desce até ao estômago e vai enchendo e não me deixa ter fome. estou cheia. estou cheia por dentro. preciso de um casaco novo e queria que uma avó me tricotasse um casaco. já não tenho avós e vou pensando no tempo e nas senhoras que talvez me quisessem tricotar um casaco. as ruas são quadros repetidos, é como visitar sempre o mesmo museu. são sempre os mesmos quadros, as mesmas pedras, muros, caixotes. mais valia que fossem ruas impressionistas. mas não são. não questiono a força das minhas pernas apesar das frágeis veias quererem romper a pele. como se tudo quisesse sair de dentro. não questiono a força das minhas pernas porque sei que um dia desato a correr e elas não me deixarão que ninguém me apanhe até pararem num precipício que ecoe e que deixe sair o que tem de sair, até dizer: regresso.

terça-feira, 5 de junho de 2012

constantly


do estado febril



estou em silêncio porque não posso gritar por ti. se a voz sair vai doer, tal como o coração. esse indiscreto órgão que até as mãos me faz tremer. como a febre que não baixa e os pesadelos que não desaparecem. os sonhos de fugas para locais longínquos e recônditos de terras que não conheço. com cores quentes. para sentir falta do familiar. sim. sou capaz de ir até à fronteira, sim. que me dissessem duas palavras apenas e eu iria. não estou a conseguir esconder tudo dentro de gavetas. pelo que vou desistir ou de guardar ou de as abrir. guarda para mim um bilhete de ida e eu vou até à fronteira. sim.

sexta-feira, 1 de junho de 2012


não me lembrava já do que era ter insónias. as paredes brancas são eternas. o escuro também, mesmo de olhos abertos. e o calor, que fica de uma parede à outra. sonho com umas mãos que ainda não conheço bem. não sonho com nada. sonho com coisa nenhuma. coisas umas em cima das outras. empilhadas. ninguém passa na rua, não são horas de passar na rua. não são horas de alguém dizer para me ir embora. olha, vai-te embora, obrigadinha e vai-te embora. Depois de meses de encalço de beleza. Olha, agora vais-te embora. Não vales nada, percebes? Isso não é para ninguém. Não são horas de ninguém passar na rua.

terça-feira, 1 de maio de 2012

dos pequenos tesouros


em 1950 descobriu-se um curioso esconderijo:
"os pequenos Dodgson haviam ali ocultado um «tesouro», talvez destinado às gerações futuras - um lenço de criança, um canivete, cacos de porcelana, um dado em miniatura, uma luva branca de dimensões minúculas... Numa ripa, lia-se a seguinte inscrição, escrita por Charles: «E havemos de percorrer o vasto mundo, à procura dos búfalos.»

em Lewis Carroll no país das maravilhas, de Stephanie Lovett Stoffel

segunda-feira, 30 de abril de 2012

da criatividade


"Curiosity, creativity, discovery and wonder; they aren’t traits of youth, they’re traits of learning. If you want to feel younger and you want to replicate the conditions of youth, do that." - Bejamin Salka

fonte: swissmiss

quinta-feira, 19 de abril de 2012


também ia escrever um texto sobre o meu país. mas como tenho a certeza de que iria começar a chorar prefiro parar por aqui e dizer: este já não é o meu país.