quarta-feira, 14 de setembro de 2011

do estofo


O que é não ter estofo? É não ter uma capa a proteger os órgãos internos do meu corpo? É por isso que o meu coração quase salta pela boca e o estômago dilata e o fígado tem pontadas? É por isso que escrevo tantas vezes sobre o meu corpo, porque ele dói? Quando eu canto a minha voz fica mais bonita. E eu canto só para mim por isso mais ninguém pode dizer que a minha voz não fica mais bonita. «Mãe, o que é o escuro?» Sabes que ainda me faço essa pergunta? E foi por isso que chorei naquele dia? Porque o escuro são as palavras que ouço da boca de pessoas cinzentas. Tenho medo do escuro. Ainda assim, enfrento o medo todos os dias. Mas agora estou a escrever porque o meu coração está a doer e eu tenho medo quando ele dói. Foi-me diagnosticado palpitações. Será que é isto não ter estofo?


estofo |ô|
s. m.

1. Tecido, pano.
2. Algodão, lã, crina, etc., para chumaços.
3. Enchimento (de tecido, espuma, etc.) que preenche o interior dos móveis que servem para assento ou encosto.
4. Entretela, chumaço.
5. Desenho feito com ponteiro (levantando o dourado).
Fonte: Priberam 
 
 
E é assim que de repente me sinto um sofá. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

da violência



sussurro nervoso das artérias que ligam ao coração, não me escondo do tremor, enfrento-o com as pernas fracas mas com o coração incendiado. não tenho controlo sobre os meus próprios pulsos e punhos que se encerram sobre si próprios e se envolvem na violência do gesto, a prender a vontade de esmurrar. tenho me defendido sempre com as palavras. são sempre as palavras que salvam. e os olhos, que sem piscar, transmitem a luz que nunca se apaga: não me vences, és igual a mim, não me vences. que se cale a violência - que se solte nas palavras escritas - que a mudança se faça assim - estúpida, mas lúcida.

domingo, 28 de agosto de 2011

do corpo ii

nude Artist Robert Rauschenber creating artwork using a nude model on 1948

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

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a espera constante das palavras.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

do pensar

pensar é estar com gente e pensar é fazer coisas com outras pessoas pela noite dentro pensar
durante o dia
discutir
pensar até ficar rouco
pensar é exigir a vida
hoje que amanhã é amanhã e hoje é a vida que vivemos a pensar e pensar é matar a morte amanhã
pensar é cantar a vida de hoje.

Rosa
1919

das nuvens


Untitled, upload feito originalmente por alison scarpulla.


pensamentos turbulentos que nascem das raízes dos cabelos e se ligam ao céu nos dias de trovoada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

do desistir



enterrar os braços na terra até conseguir agarrar as raízes e enrolar os meus cabelos nelas. mergulhar a cabeça na árvore até que saltem todas as cascas velhas e o musgo me envolva num vestido verde. que as asas se esqueçam delas próprias e fraquejem até no vento mais forte. que esses braços nunca mais recebam um único raio de sol e que a respiração só volte quando o coração puder bater calmo e sereno, quando o regresso à terra puder ser sem guerra nem pedra até ao fim de todos os tempos.